I
tens a pesca nos olhos e a
certeza
de um mar vazio
as promessas do sul cavam nos
braços
a linguagem da rede, o
peixe
o alimento da
freguesia
enquanto as andorinhas
passareiam
voos crepusculares nos
beirais
arabescos das ruas moçárabes,
estreitas.
é sempre a mesma
viagem
para são lourenço, marrocos,
mauritânia
ou nas idas e voltas para
bordéus.
ah a viagem para o
norte
«quando ia
para bordéus ia pondo mais roupa de cada vez
quando vinha de bordéus ia tirando cada vez mais
roupa».
a surpresa da
temperatura
no caminho do norte, no
caminho do sul.
II
na praça da fuseta
manuelzinho
não precisa de explicar
nada.
os olhos navegam cada pedra e
cada pássaro
que se acoita na palmeira
envelhecida.
um músico ambulante da roménia
toa marchas
pasodobles na corneta
envelhecida
ao ritmo do piano
electrónico
e os turistas de ocasião, com
copos de cerveja
gritam olés como se estivessem
em terras de espanha.
o al-gharb o outro lado do
andaluz
sem o cante hondo mas onde
sobressai
a amendoeira e a alfarrobeira
e a laranjeira
e a tez morena do sul e aquele
olhar de longe
à procura de um peixe ou de um
navio ou de uma
mulher.