The Melody - John William Godward

 
  
  

 

 

Diálogos com T. S. Eliot no Sul do Sol

 

I

Uma Gaivota

 

uma gaivota roçou-me no cílio

como se fora a ponta de um pavio

e quando o sol crescia todo o exílio

iluminava a quilha de um navio.

 

 

II

Nas Asas do Sol

 

ícaro voa nas asas do sol

e o sul espalha na água o reflexo

do barco marisqueiro em rodopio

no banco de areia em baixa maré.

os cirroestratos de um céu impossível

de tanto azul escondem o velame

da marinhagem feita em labirintos

para um fio de ariadne caprichoso

que se enovela como teia firme

no perspicaz enredo que dos deuses

só saem os nós cegos escondidos

na minha cnossos. minotauro fujo

invento voos, dédalo entoante

sempre enredado em viagens de novelo.

 

 

III

Um Amor Escuso

 

na açoteia há um amor escuso.

espreito pela janela do lado de lá

onde a costureira ensaia um corpo jovem

num vestido cor púrpura.

os cabelos caem-lhe nos seios

como dedos a desenhar dunas

nos frutos oferecidos com um sorriso.

no sul de agosto até os deuses

condescendem na visão da carne

um corpo nu gratifica a beleza

e faz efémero o tempo do desejo.

 

 

IV

Bebedeiras de Sol

 

quando puseram a fotografia

na lápide

não sabiam do teu sorriso irónico do sul

o sol nos olhos e aquela frase, se bem me lembro

     «josé, põe a cortina com os desenhos para fora

     é para deleite de quem passa e olha, a construção

     do gesto basta-nos»

demoravas horas a percorrer

a rua curta da sociedade até à praia

e a tua figura, grande, era uma estátua

a quem todos se inclinavam

para um bom dia ou boa tarde.

 

a fotografia não diz nada

é descolorida como a ausência

e a conveniência das flores

é a assinatura de um quadro falso

sob o queixo quadrado, preciso.

 

um dia, amigo, coloco por cima uma

daquelas fotografias de um resto de álbum

e quando vier ver-te no chão da memória

sorrirei sempre contigo por rerum omnia.

até lá me baste o vinho

e a lembrança de noites que julgámos perdidas

no cheiro da hortelã e do borrego

em bebedeiras de sol

e um sorriso aberto do tamanho das águas.

 

 

V

Búzio de Conversa

 

I

tens a pesca nos olhos e a certeza

de um mar vazio

as promessas do sul cavam nos braços

a linguagem da rede, o peixe

o alimento da freguesia

enquanto as andorinhas passareiam

voos crepusculares nos beirais

arabescos das ruas moçárabes, estreitas.

é sempre a mesma viagem

para são lourenço, marrocos, mauritânia

ou nas idas e voltas para bordéus.

ah a viagem para o norte

    «quando ia para bordéus ia pondo mais roupa de cada vez

     quando vinha de bordéus ia tirando cada vez mais roupa».

a surpresa da temperatura

no caminho do norte, no caminho do sul.

 

II

na praça da fuseta manuelzinho

não precisa de explicar nada.

os olhos navegam cada pedra e cada pássaro

que se acoita na palmeira envelhecida.

um músico ambulante da roménia toa marchas

pasodobles na corneta envelhecida

ao ritmo do piano electrónico

e os turistas de ocasião, com copos de cerveja

gritam olés como se estivessem em terras de espanha.

o al-gharb o outro lado do andaluz

sem o cante hondo mas onde sobressai

a amendoeira e a alfarrobeira e a laranjeira

e a tez morena do sul e aquele olhar de longe

à procura de um peixe ou de um navio ou de uma mulher.

 

III

as ruas em búzios de conversa

só dizem de pescarias e de navegações

de lemes e de redes, de alcatruzes e de polvo

até que a âncora encalhe e prenda

e solte e agarre às rochas

e um adeus curto adie a fala

até à próxima maré.

'

 

VI

No Fio da Noite

 

no fio da noite o sul é mais longe

do que abarcas para além do olhar

e quando principia a madrugada

porque às vezes os deuses são benévolos

cantar um poema com as mãos roçando

na copa do alecrim com a displicência

própria de quem vê o peixe no mergulho

breve do canal pleno de navios

quando o sol se planta à tua frente

e vem de ti a sede das laranjas

um bocejo é a sombra nas colunas

do cais com cheiro a morte e a maresia.

passam crianças, gestos cristalinos

enquanto a mulher se oferece rindo.

 

 

VII

A Bebida das Palavras

 

dez horas da manhã e uma criança

oferece-se à lâmina do cais

e na voz arrastada pede o que lhe dão

aos gajés turistas que ficam mais pobres depois de agosto.

 

emília tinha uma casa e um carro.

uma segunda casa, uma tenda de campismo

e dois filhos azuis com caracóis camomila

 

foram dias de sol e sul

de frutos frescos, de peixe na brasa e amasias.

 

o verão foi mais curto do que antes.

regressou ao porto com os filhos em desmazelo

sem tenda de campismo, sem o sol nos cabelos

e com o cheiro de outra mulher na última noite de sexo

nas costas do bar

e uma laje de memórias em construção.

 

caduca, a vida é como este poema que te lembra

enquanto for bebida as palavras que cobrem a vida.

 

 

VIII

O Sol do Sul

 

o sol do sul na janela

traz um sorriso de mulher -

vem como um relâmpago

em noite de tempestade sulina.

 

lembro-me de te ter beijado o sexo

e com um raio de luz intenso

gravou para sempre o primeiro sabor.

 

quando a sede reclama e o sol

e o sul se interpretam

regresso sempre à árvore para colher o fruto

e tu mastigas pétalas de flores violetas.

 

 

IX

No Sul de Tanto Olhar

 

não há nada mais sublime do que pôr

o olhar na verticalidade do infinito

que pode ser a curvatura interior

de uma abóbada

ou a esquina dos olhos

na parede branca.

ambas te dão a sensação de deus

embora pareça interiorizar-te

uma sobrevaloração do cosmos.

 

olha para ti e o que vês

igualmente deus e o pó

no sul de tanto olhar o sol cegamos.

 

 

X

Apesar de Tudo

 

sinto o pó nos dedos

sempre que o sul me dá a raiz da árvore

e mesmo que a luz do rosto se apague

apesar de tudo.

 

 

Um pouco sobre José Félix

 

 

José Félix nasceu em 1946, em Luanda, Angola.

Licenciado em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, de Lisboa.

Vive em Portugal desde 1978.

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entre em contato com José Félix

jonasfel@netcabo.pt

 

 

 

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