The Proposal (1872) - William Bouguereau

 
  
  

 

 

 

 

Viagens

 

 

   Gosto de viagens mas não de certas situações que são decorrentes delas.

   Não gosto de despedidas e nem de recepções. As primeiras têm qualquer coisa de humilhação para quem fica e exaltação para quem parte. As segundas têm situações inversas.

   Prefiro a partida silenciosa, sem rumores, tanto para a saída em uma viagem de lazer ou de trabalho, mesmo que de ausência duradoura. Prefiro a partida sutil como quem está saindo de manhã para retornar a tarde. Um até breve, um tchau, um até logo mais.

   A chegada também sem alardes, como quem chega de uma pequena ausência, rápida, rotineira, quase imperceptível.

   Quando ela viajou, foi assim: disse-me estou partindo. Não houve tempo para despedidas demoradas, só soluços contidos. Um até qualquer dia.

   No retorno dela fora mais ou menos da mesma forma: fora desembarcando e desfazendo a bagagem. Com calma e vagar, falamos só o essencial daquilo que movimentara nossas vidas naquele intervalo de três messes.

   Viagem longa demais, tempo suficiente para que nossos bons amigos, o Gaúcho e a Tieta, sentissem que deveriam rosnar para ela, mostrando-lhes os dentes agressivos e ameaçadores quando retornara à casa.

   Tiveram esta manifestação não para dizerem-lhe que não era bem vinda. Assim agiram para dizerem-lhe que tinha ficado ausente por muito tempo. Tempo demais para eles, também. Mais calados que o dono eles sofreram a ausência dela.

   Não perguntara por onde ela andara, o que vira, o que visitara. Ela também nada quisera saber do que eu fizera naquela sua ausência. Fomos práticos até demais, para ser sincero. Mas foi melhor assim.

   A despedida cansa, deixa exausto, cria emoções desnecessárias. O cerimonial da chegada traz perdas de tempo para coisas mais agradáveis e oportunas.

   Na despedida, um olhar profundo nos olhos e palavras simples em sentenças curtas, dizem mais que promessas ou ameaças alarmantes. No retorno, um abraço afetuoso, um segurar firme nas mãos, um passar de mãos pelos cabelos da recém chegada, são mais eloqüentes que tantas juras.

   Quando não se quer a separação, quando se aceita a dureza deste ato, por pura alternativa, usa-se o recurso do "até qualquer dia ". Assim expressando-se deixa-se claro que se espera, que se aguarda, que se anseia por ele.

   Ele não será um dia casual, será um dia muito importante, será o dia que marcará dois tempos: antes e depois dele.

   Assim fora quando nosso "qualquer dia" acontecera.

   Ela ao partir estava com os cabelos mais compridos como sempre os usava desde que a conheci. Ao retornar, eles estavam cortados bem curtos. Escolhera um corte atual que me disse não estar contente com ele. Eu também não aprovara a mudança, mas nada disse a respeito.

   Conservava a franjinha que era uma de suas marcas registradas, talvez para dizer para nós que não tinha se esquecido de mim, totalmente. Sabia que eu gostava daqueles pedacinhos de cabelos sobre sua testa insinuando cobrir um dos seus lindos olhos altivos.

   Em momentos de turbulência interior, busca-se mudanças exteriores para tentar soluções ou compensações. Assim nós dois agíramos, mesmo sabendo que era recurso vão.

   Para mim estava ótimo. O seu retorno era aquilo que mais interessava-me. Ansiava por ele!

   O seu sorriso tinha ido embora. Tinha embarcado em viagem antes dela e ainda não havia retornado. Ficara extraviado em algum ponto do universo.

   Em viagens sempre se extravia alguma coisa. Ela tinha extraviado o seu sorriso. O interessante é que raramente se encontra alguma coisa de grande valia, só perde-se. O saldo das perdas é sempre maior. Ela tinha tido seu sorriso encantador extraviado e agora estava sem ele. Que pena.

   Entramos em trabalho de reconquistas de tudo que havíamos perdido. Eu também perdera bastante do encanto pelo viver, justamente quando começava a viver.

   Sem ela ao meu lado fiquei sem mundo. É, sem mundo. Ao tê-la comigo, descobri que ela era o meu mundo. Ela em viagem, fiquei sem base para estabelecer-me. Meus olhos não enxergavam horizontes, minha cabeça não tocava firmamento, meus pés não encontravam solo.

   Que bom que ela voltara. Esperava por isto, sonhava com isto, dormindo e acordado. Agora era juntos reunirmos o que restara pós viagem, esquecermos os pesadelos, recuperarmos as perdas, principalmente o seu sorriso, jogarmos fora os passaportes e fazermos pacto de nunca mais nenhum viajar.

 

 

Enamorados

 

   "É impressionante o poder transformador do amor, da paixão entre homem e mulher. O humor melhora, os olhos brilham, o descompasso dos batimentos cardíacos são compassados, porque então não seguem a cadência do sangue e sim da alma."

 

 

A Moça dos Sonhos

 

   "Este privilegiado pedacinho de metal nobre, tinha que ser nobre, que não se contenta em ser o único objeto a estar entre e no topo daqueles dois universos, ainda balança num dim-dom mudo, aproveitando-se da situação, quer passar despercebido. Maliciosamente balança e massageia a área por onde passa. Que boa sorte tens!"

 

 

 

Ela

 

   "Passamos juntos os finais de semana. Se o tempo tinha parado nos dias anteriores, agora parece querer tirar o atraso e então dispara. Final de noite de domingo é começo de melancolia."

 

 

Escuro e Silencioso

 

    "Quando se está envolvido com alguma coisa interessante, se esquece tudo o mais que nos rodeia. Assim eu estava. Esquecido de qualquer outro acontecimento dentro ou fora do veículo que me transportava. Minha atenção era toda para entender, ou pelo menos tentar, se Capitu traiu ou não Bentinho."

 

 

Encerramento do Exercício Amoroso

 

   "São manias que se pega, ossos do ofício, não sei mais o quê. Sei que hoje completa um ano do primeiro passo dado em direção do conhecimento da pessoa que atualmente é para mim a mais amada e interessante que me diz respeito."

 

 

 

Impossível Esquecer

 

   "O tempo deveria ser complacente com os amantes. Deveria diminuir o seu ritmo, não causando atropelos assim impedindo de dizer-se ou fazer-se tantas coisas que só felicidades trariam a um homem e à uma mulher. Como não há essa complacência, vem a necessidade do atropelo."

 

 

Minha Namorada

 

   "A cada instante penso assim: tê-la, depois morrer. Porque nada mais de melhor resta provar. Mas no momento seguinte, quero viver mais para tornar tê-la novamente. Sempre assim, um ato sucedendo ao outro."

 

 

Sempre a Mulher

 

   "O romântico está sempre de peito aberto, de guarda baixada. É alvo fácil para o tiro certeiro de uma mulher fascinante. O amante romântico enxerga facilmente no rosto feminino que lhe encanta, a promessa de felicidade que ele traz consigo."

 

 

Porque você não me esperou?

 

   "Nossa convivência era de pouca duração, mas constante. Geralmente nos encontrávamos no começo e no final de cada dia. O primeiro encontro era para acordar-me para a vida e o segundo para adormecer-me em sonhos."

 

 

Calma Fascinante

 

   "A impressão que passava era que desconhecia pressas e se conhecia não tinha trazido para seu comportamento. Um olhar distante, um isolamento pleno, uma concentração tamanha que lembrava um monge Chaulin.

   Isto a tornava notada e dificilmente alguém, por pior observador que fosse, deixaria de distingui-la das outras tantas pessoas presentes naquela movimentada lanchonete de rodoviária de grande cidade."

 

Trechos das  obras que compõem o Livro CD "Minhas Crônicas". Para adquirir a obra completa do autor João Ligório, entre em contato pelo e-mail autor@e-estudar.com.br

 

 

Um pouco sobre João Ligório

 

João Ligório, nascido no Rio Grande do Sul, é autor de várias obras românticas, sempre enaltecendo a mulher, que para ele é o encanto maior. Autor também de crônicas do cotidiano, a maioria já publicadas em livros, revistas, jornais e sites. É autor do romance "Luciana Existe!".

 

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