Viagens
Gosto de viagens mas não de certas situações que são
decorrentes delas.
Não gosto de despedidas e nem de
recepções. As primeiras têm qualquer coisa de humilhação para quem
fica e exaltação para quem parte. As segundas têm situações
inversas.
Prefiro a partida silenciosa, sem
rumores, tanto para a saída em uma viagem de lazer ou de trabalho,
mesmo que de ausência duradoura. Prefiro a partida sutil como quem
está saindo de manhã para retornar a tarde. Um até breve, um tchau,
um até logo mais.
A chegada também sem alardes, como
quem chega de uma pequena ausência, rápida, rotineira, quase
imperceptível.
Quando ela viajou, foi assim: disse-me
estou partindo. Não houve tempo para despedidas demoradas, só
soluços contidos. Um até qualquer dia.
No retorno dela fora mais ou menos da
mesma forma: fora desembarcando e desfazendo a bagagem. Com calma e
vagar, falamos só o essencial daquilo que movimentara nossas vidas
naquele intervalo de três messes.
Viagem longa demais, tempo suficiente
para que nossos bons amigos, o Gaúcho e a Tieta, sentissem que
deveriam rosnar para ela, mostrando-lhes os dentes agressivos e
ameaçadores quando retornara à casa.
Tiveram esta manifestação não para
dizerem-lhe que não era bem vinda. Assim agiram para dizerem-lhe que
tinha ficado ausente por muito tempo. Tempo demais para eles,
também. Mais calados que o dono eles sofreram a ausência dela.
Não perguntara por onde ela andara, o
que vira, o que visitara. Ela também nada quisera saber do que eu
fizera naquela sua ausência. Fomos práticos até demais, para ser
sincero. Mas foi melhor assim.
A despedida cansa, deixa exausto, cria
emoções desnecessárias. O cerimonial da chegada traz perdas de tempo
para coisas mais agradáveis e oportunas.
Na despedida, um olhar profundo nos
olhos e palavras simples em sentenças curtas, dizem mais que
promessas ou ameaças alarmantes. No retorno, um abraço afetuoso, um
segurar firme nas mãos, um passar de mãos pelos cabelos da recém
chegada, são mais eloqüentes que tantas juras.
Quando não se quer a separação, quando
se aceita a dureza deste ato, por pura alternativa, usa-se o recurso
do "até qualquer dia ". Assim expressando-se deixa-se claro
que se espera, que se aguarda, que se anseia por ele.
Ele não será um dia casual, será um
dia muito importante, será o dia que marcará dois tempos:
antes e depois dele.
Assim fora quando nosso "qualquer
dia" acontecera.
Ela ao partir estava com os cabelos
mais compridos como sempre os usava desde que a conheci. Ao
retornar, eles estavam cortados bem curtos. Escolhera um corte atual
que me disse não estar contente com ele. Eu também não aprovara a
mudança, mas nada disse a respeito.
Conservava a franjinha que era uma de
suas marcas registradas, talvez para dizer para nós que não tinha se
esquecido de mim, totalmente. Sabia que eu gostava daqueles
pedacinhos de cabelos sobre sua testa insinuando cobrir um dos seus
lindos olhos altivos.
Em momentos de turbulência interior,
busca-se mudanças exteriores para tentar soluções ou compensações.
Assim nós dois agíramos, mesmo sabendo que era recurso vão.
Para mim estava ótimo. O seu retorno
era aquilo que mais interessava-me. Ansiava por ele!
O seu sorriso tinha ido embora. Tinha
embarcado em viagem antes dela e ainda não havia retornado. Ficara
extraviado em algum ponto do universo.
Em viagens sempre se extravia alguma
coisa. Ela tinha extraviado o seu sorriso. O interessante é que
raramente se encontra alguma coisa de grande valia, só perde-se. O
saldo das perdas é sempre maior. Ela tinha tido seu sorriso
encantador extraviado e agora estava sem ele. Que pena.
Entramos em trabalho de reconquistas
de tudo que havíamos perdido. Eu também perdera bastante do encanto
pelo viver, justamente quando começava a viver.
Sem ela ao meu lado fiquei sem mundo.
É, sem mundo. Ao tê-la comigo, descobri que ela era o meu mundo. Ela
em viagem, fiquei sem base para estabelecer-me. Meus olhos não
enxergavam horizontes, minha cabeça não tocava firmamento, meus pés
não encontravam solo.
Que bom que ela voltara. Esperava por
isto, sonhava com isto, dormindo e acordado. Agora era juntos
reunirmos o que restara pós viagem, esquecermos os pesadelos,
recuperarmos as perdas, principalmente o seu sorriso, jogarmos fora
os passaportes e fazermos pacto de nunca mais nenhum viajar.