The Seamstress (1891) - John William Godward 

 
  
  

 

 

 

 

CHUVA

  

Ouvir a chuva

silenciar palavras

recolher  sobras

diárias

da convulsão

humana

 Sentir a chuva

aproximar pessoas

acolher o tempo

desigual

endêmico

 lavar as mãos

de quem só soube telas 

fechadas.

 

 

CARNE

 

Carne: repositório de lascivas

possibilidades.

 

Satisfação do que se tem

face ao que se pode ter:

 desejo

transposto o limite do decoro

e seu inútil anseio.

 

 

CONSEQÜÊNCIAS

 

Lágrimas, apenas,

e a certeza

de que tudo

passou.

 

Às conseqüências,

somente o indulto

do esquecimento.

 

 

ALGO

 

Sozinha a observar

pela janela

em busca de

explicações

em busca de

respostas

algo

que pudesse

 justificar

os fatos

acometidos

não relutou

 

não consentiu

apenas deixou

que partisse

 

ENCONTRO 

 

Mãos que se tocam

entre gestos

carícias

e saudações

 

olhares plenos

repletos

em um abraço

silente

fraterno.

 

  

CONVÍVIO

 

Gotas repentinas

anunciam a chuva

alegram o convívio 

entre passos

rápidos

risos e frases

interruptas

pessoas atravessam

a rua

 

 

 

BRINCADEIRA

  

Ao jogar a bola no chão,

não repetiu, com as mãos,

o mesmo gesto que fizera

para que a jogasse.

 

Apenas sorriu.

 

 

 

ADMIRAÇÃO

 

De joelho no asfalto

amarra o cadarço

 

para em seguida

levantar e correr

 

em direção à mãe

que ao curvar-se

 

(olhando com admiração)

 

lhe beija a face

 

O ANCIÃO

 

Disse o ancião a seu discípulo:

– De perguntas e respostas se constitui a vida.

Mas enfim, tudo termina!

 Em face da morte, nenhuma dúvida ­se efetiva como esclarecimento.

O itinerário da razão está encerrado.

 

obras atualizadas em 10/2006

Um pouco sobre Hilton Deives Valeriano

 

 

 

 

 

Hilton Deives Valeriano. Nascido em 23/02/1978 na cidade de Osasco, São Paulo. Formado em filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

Influências literárias: João Cabral de Melo Neto, Haroldo de Campos, Augusto de Campos, Carlos Drummond de Andrade.

Obs: Admira profundamente a poesia brasileira, o que implica em diversas influências e concepções poéticas diversas não se resumindo apenas aos nomes indicados. A citação de João Cabral, dos concretistas e de Drummond, se justifica pelo fato de que, para o autor, a poesia deve ser fruto de raciocínio e elaboração sistemática, ou seja, um artefato do espírito permeado por uma visão abrangente da realidade transfigurada pela visão do autor e transformada em matéria poética.

 

entre em contato com Hilton Deiveis Valeriano

hilton.dv@terra.com.br

 

 

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